Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de 2016

Você não gosta dela

   Você acha ela bonita, mas não é nada como ah-meu-deus-ela-é-muito-linda, e parece que nem é algo como ah-acho-que-vou-apresentar-aos-meus-pais. Você até acha ela legal, mas não diria que ela tem uma conversa que não dá vontade de parar nunca, e talvez ela seja legal apenas para tomar conta do seu cachorro quando você viaja.    Você até que tem uns papos interessantes com ela às vezes - nada muito profundo nem, nunca, em hipótese nenhuma, sentimental -, mas isso quando não há nada mais importante para fazer nem ninguém mais interessante para encontrar. Você pode até ter postado uma foto com ela nas redes sociais, mas foi incapaz de dizer um "eu te amo" ou "me liga quando chegar em casa". É que você nem liga mesmo para ela. Você não se importa se ela está triste, se você a faz triste, se toda essa história está acabando com a alegria e tranquilidade dela.    Você gosta do jeito que ela te trata. Gosta de ter alguém por perto a quem possa recorrer em último

Cansei de você

   Eu cansei de falar sobre você. Cansei de pensar em você, cansei de me lembrar de você. Grande coisa, hão de pensar. Qual o problema? Eu não cansei de te falar. Ainda que você não ouça. Ainda que você não leia. Ainda que não receba. Ainda que você nem saiba.    Eu cansei de pensar em você, finalmente. Mas, incompreensivelmente, não canso de te escrever. E, repetidamente, sempre desisto de te mandar. Eu já acreditei no poder das palavras, do pensamento, do amor. Mas não dá para continuar acreditando nas palavras que não são ditas, no pensamento que não é compartilhado e no amor que não inclui dois.    Eu tentei. De todas as formas, todos os jeitos que conseguia pensar. Tentei não ter que te esquecer, tentei não ter por que te esquecer, tentei te esquecer de vez. Fracassei lindamente em todas as três.

Sempre foi sobre mim

   Eu falo demais. Eu conto detalhes, eu falo sem parar, eu falo numa velocidade que algumas pessoas nem conseguem entender. Eu conto historias da minha vida, conto histórias de vida de gente que nem lembro exatamente quem foi - o que importa é a história - conto da vida de gente que, na verdade, eu nunca nem vi.     Já me defini como verborrágica. Eu sempre tenho algo para falar: da vez que aconteceu aquilo comigo, da minha amiga que disse que já teve isso, da minha tia que contou que viu isto acontecer. O grande problema é que, muitas vezes, eu não falo. Já me entendi como uma bonequinha que precisa que deem corda - e essa corda se chama intimidade.     Eu tenho vergonha de falar coisas simples com quem não me sinto à vontade, tenho vergonha de ligar para pedir uma informação, tenho vergonha de tirar uma dúvida quando não entendi. Eu não consigo encarar alguém quando percebo que está olhando para mim. Eu não sei o que dizer se me elogiam ou se conheço alguém novo.     Ser t

Nostalgia

   Semana passada me disseram que nostalgia é o vazio que preenche. É naquelas horas em que nada parece fazer sentido ou ter graça: aquele vazio que traz a comparação com o que já passou, uma sensação boa pelo que se viveu, uma saudade do que não volta. Essa saudade é sentimento ambíguo: uma felicidade que faz sorrir sem nem perceber, só de lembrar os momentos bons. Também é tristeza por não ser mais, é medo do hoje, mas principalmente do amanhã.    Muitas vezes a nostalgia me preenche. Às vezes quando o presente não satisfaz, às vezes em datas comemorativas, às vezes quando vejo alguém viver o que vivi algum tempo atrás. Às vezes a nostalgia é como uma amiga traiçoeira: faz companhia, alegra aqueles poucos segundos, mas, como ilusão, me mantém vazia. Às vezes a nostalgia é puramente reconhecimento daquela fase boa que passou. É revisitar o passado com o ar de um filho independente que se depara com o seu quarto na casa dos pais.     Agora minha nostalgia é só querer voltar no tem

Eu já achei que era tudo isso

   Eu tive uma época em que escrevia muito, lia de tudo. Eu amava textos melosos, românticos, bem parecidos com os meus. Eu praticamente só assistia a filmes de comédia romântica, daqueles que nas primeiras cenas você já desvenda o enredo inteiro. Eu suspirava com a cabeça no travesseiro. É, eu já pensei que a vida era tudo isso. Assim como um conto de fadas, como os meus livros encantados de chick-lit. Eu exagerei. Eu sou exagerada.    Hoje, eu olho para trás - quando dá tempo de olhar para trás - e rio do quanto era boba. Rio de como eu enxergava tudo no superlativo, de como minhas emoções tinham que vir no aumentativo, de como tudo era tão diferente do que é hoje.    Talvez hoje as coisas sejam muito cinza. Eu leio textos chatos, não vejo mais novelas, tenho assistido a filmes sobre crimes. Muita coisa perdeu a graça. Eu não visito mais os blogs que costumava visitar. Eles continuam bem iguais, o problema é que eu já não me reconheço naqueles textos. E nem teria como. Eu não es

Sobre um dos meus maiores amores e orgulhos

   Quem me conhece sabe o quanto eu mudei depois da abertura da Academia Vieirense de Letras e Artes. Quem me conhece sabe o quanto eu amo essa Academia, o quanto eu me orgulho de ter feito parte dessa transformação. Quem não me conhece talvez não tenha ideia do que estou falando, então vou explicar:    Em 2014, quando estava no terceiro ano do Ensino Médio, fui chamada para reabrir a Academia de Letras do meu colégio. Eu não fazia ideia do que isso significava, assim como nenhum dos outros dezesseis loucos e sonhadores que entraram de cabeça nesse projeto. Reabrimos a Academia (você pode assistir ao primeiro vídeo) e ela cresceu de uma forma que seria impossível explicar aqui. Abarcamos diversas formas de artes, crescemos em número de membros, em quantidade de apresentações, em maturidade de emoções (você pode ver o segundo vídeo, com o primeiro sarau de 2016).    Em 2015, um outro grupo se formou no meu colégio: o NEIMS, ou Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Minorias

Desculpe o transtorno, você não precisa invadir

   Ele era um escritor famoso, cineasta reconhecido no circuito alternativo e humorista cult. Ela cantava. E atuava. E sorria. Naquele dia, foi dormir depois de compor uma música. Ele apagou no sofá depois de publicar um texto. Só acordaria na tarde do dia seguinte. Ela acordou cedo, tomou banho, preparou um chá, regou as plantas. Ia sair para correr, quando pegou o celular. E não entendeu nada.    Uma enxurrada de mensagens invadia suas redes sociais, centenas de desconhecidos falando sobre sua vida, sobre seus romances, sobre suas memórias. Ela simplesmente acordou no meio de uma comédia romântica já acabada, em que as pessoas no cinema se levantavam, sorriam e comentavam sobre como a história era linda, como o casal deveria ter ficado junto e como eles também queriam um amor digno de filme. O problema é que aquilo na tela era a sua vida, e ela não sabia que estava sendo gravada.    Ele contou como eles se conheceram, e todo mundo achou fofo. Mas ele falou do quanto ela errav

Não sei mais sobre a gente

   Eu não sei o que a gente foi. Para falar a verdade, não sei nem se a gente foi alguma coisa. O que quer que a gente tenha sido, não sei por que a gente foi. Tudo parece tão estranho agora...    Acho que eu devo parecer uma pessoa completamente diferente. Você ficaria feliz em saber que, para mim, você com certeza é alguém muito diferente do que era. Se é que era mesmo assim, como eu conhecia, ou como achava que conhecia, ou como minha memória embaçada hoje imagina que fosse. Como será que você lembra de mim? Será que ainda lembra?    Eu não sei mais ao certo o que aconteceu com a gente. Por que tudo aconteceu, como aconteceu, ou por que simplesmente não estava acontecendo mais. Eu não sei quais partes são reais, quais são pedaços soltos das minhas fantasias repetidas.    Acho que eu não sei mais quem é você. Não faço ideia de por onde anda, o que faz, do que gosta, do que ri. Não faço ideia do porque, entre tantas qualidades e defeitos de milhões de pessoas aleatórias, fu

Você é do mundo

   Sabe todas aquelas minhas ideias de viajar, conhecer e explorar? Sabe todos os meus textos sobre voos, passarinhos e viagens? Sabe aquelas conversas em que eu dizia com os olhos brilhando os lugares por onde ainda queria passar?    Pois é. As ideias continuam pregadas na parede, num mapa múndi com apenas pouquíssimas tachinhas marcando onde já pisei. Os textos continuam sonhadores, publicados no mesmo blog, enquanto eu continuo sentada na mesma biblioteca. Pelo menos, os olhos continuam brilhando.     Eu não deixo de querer, mas ainda sou a mesma pessoa que passeava no shopping nas tardes de sábado. Continuo indo à mesma praia em frente à minha casa nas manhãs de domingo. Diminuí a frequência por causa dos estudos, mas ainda sou das mesmas areias conhecidas, das mesmas vitrines já visitadas, dos mesmos sorrisos amarelados.     Continuo numa cidade grande o bastante para chamar os outros de alguém "do interior", mas pequena o suficiente para sair e já saber que

Ele quer voltar

   Ah, agora ele quer voltar. Agora ele diz que não vive sem você, que não consegue mais dormir, que só quer saber de te ver. Agora ele diz que sentiu saudade, que tomou a atitude errada, que ele não teve coragem. Agora ele é o cara certo. Por quê? Ele veio com esse novo papo de responsabilidade. Mudou, amadureceu, entendeu como a vida funciona. Sério? Você vai mesmo dar crédito a essa conversa?    Agora ele diz que vai ser diferente. Diz que você é prioridade, que vai te contar todas as novidades, que até o baba do domingo vai, finalmente, poder esperar. Agora ele diz que não vai demorar para responder no celular, promete todas as noites te ligar, e jura até que avisa quando for demorar. É que agora ele sabe o valor da sua atenção. Sim, ele usou isso nessa declaração. Passou meses com você e só agora foi descobrir?     Ele jura que nunca mais vai te trair. Ele trata isso como se fosse parte da negociação. Não tem nem explicação. Ele promete te apresentar aos pais, à tia que s

Eu gosto da sua angústia

   Os conformados não mudam o mundo. Por mais que isso possa parecer ruim, fico feliz que não seja um deles. Gosto do jeito que seus olhos brilham e suas mãos tremem quando deseja fazer algo. Gosto do jeito que a sua voz fraqueja e você se embola nas palavras na hora de propor as suas mudanças. Eu adoro o jeito que o seu coração deve bater assustado durante os picos de adrenalina.    Eu adoro seu eu revoltado. Amo quando te vejo indignado, quando segura uma lágrima para não chorar na frente de quem já sofre tanto. Gosto da mistura de medo e esperança que seus olhos demonstram quando encaram o céu. Gosto da forma meio desesperançosa com que reclama, como se nada de bom, de repente, pudesse acontecer. Adoro que você saiba que, realmente, de repente, nada acontece. Acho ainda melhor quando você chega a conclusão que, então, é preciso fazer algo, agora, para mudar a situação.    Eu gosto da sua angústia porque ela é cheia de indignação. Ela pondera riscos, mas não abandona o plano

Você é só mais um número

   Você já deve ter dito, pelo menos uma vez na vida, que não queria ser apenas um número. Se não disse, pensou. Ninguém quer ser insignificante. Ninguém quer perder sua personalidade para ser identificado por um conjunto de algarismos inventados centenas de anos atrás. Ainda que você não queira, você provavelmente é apenas mais um número. Durante, digamos, a sua vida toda.    Tudo começa quando você é o bebê do quarto/berço número tal. Todos aqueles médicos e enfermeiros já viram dezenas de bebês parecidos com você. Ou, a depender do tanto que te achavam com cara de joelho, eles já viram outras dezenas de bebês iguais a você. Talvez você seja o segundo filho da sua mãe. Então, tudo que ela fez com você, quando te amamentou, quando deu o primeiro banho, quando tirou a primeira foto... Desculpe dizer, ela já tinha feito tudo isso antes.    Quando você entrou na escolinha e começou a receber notas, você era mais um número. Não importa muito se você era o melhor ou pior aluno: vo

Assuntos ou epifanias

Talvez eu devesse falar das mulheres que amam demais. Mas aí tem aquele pequeno problema que já falaram do assunto. E que eu sou nova demais e com experiências de menos para supor entender o que vive uma mulher que ama demais. Talvez eu devesse falar das jovens que amam demais, mas continuaria o problema de eu amar de menos. Então, talvez eu devesse falar sobre as meninas que já não acreditam no amor. Talvez. Fora a parte que eu continuo acreditando. Não que seja como a gente quer que seja ou como a gente acredita que é. Talvez seja apenas para alguns, não para todos. Mas não dá para dizer que você não acredita, quando você acredita que, para alguém, mesmo que do outro lado do mundo, ele existe. Ou já existiu. Em algum momento, ele estava lá. Talvez, por isso, eu tenha algo sobre o que falar. Mesmo que não seja comigo. Mesmo que eu não tenha vivido. Mesmo que qualquer coisa. Ainda que o texto não seja bom. Ainda que o meu sentimento não seja verdadeiro. Ainda que, em mim, não haja sen

Eu não sei mais o que fazer

   Eu não sei mais para onde ir, não sei que rumo quero tomar, não sei o que me faria feliz. Eu não estou triste. Tá, tudo bem. Talvez eu esteja mesmo triste. Mas é que eu não tenho motivos para estar, e é meio incompreensível estar assim sem motivo. É só que tudo anda meio parado. Tudo anda bastante parado. Eu só não sei mais como continuar. Não sei para onde continuar. E eu continuo caminhando. Continuo andando, apenas para não cair. Não é como se estivesse seguindo a luz no final do túnel. Não é nem como se estivesse em um túnel. É só como se eu estivesse perdida em um deserto, e para todos os lados só houvesse areia. Não há sinal de mais nada, não há objetivo para alcançar, só esse sol que castiga minha pele e me faz apertar os olhos. E eu continuo andando. Não sei para onde, não sei porquê, não sei porque não me deixo cair, não sei porque me obrigo a continuar. E eu continuo. O deserto esfria, eu penso, tola, que o calor melhoraria. Sou atingida pelo frio e pelo vento que parece

A gente se perdeu no medo de arriscar

   A gente sempre tenta se preservar. Ninguém quer se machucar, ninguém quer expor suas feridas, ninguém se abre para novas mágoas. O problema é que, nessa de se proteger, a gente acaba ficando no meio do caminho. A gente evita as tristezas suprimindo as histórias, e acaba ficando sozinho. A gente não se dá a oportunidade de conhecer novas pessoas, não perdoa as antigas e, no fim, acaba tendo o teto do quarto como melhor amigo. A gente se permite apenas romances sem amores, frases sem verdade, conversas sem olhar. A gente não consegue permanecer na superfície, mas não se deixa alcançar a profundidade.    A gente sonha com amores eternos e ultrarromânticos, mas esquece que o romantismo tem muito de lágrimas. Para evitar as cicatrizes, a gente se enche de desculpas, de culpas e de proteções que, além das tristezas, evitam emoções. A gente sonha com liberdade, mas não passa muito de uma criança de playground: criada com bicicleta de rodinha, cotoveleira, joelheira e capacete. Nós s

Por menos Inês

   Inês era uma daquelas garotas sorridentes, até numa segunda-feira, até às seis da manhã. Ela chegava antes da aula, com seu andar saltitante, e perguntava a todos se estava tudo bem, sim, muito obrigada. Inês tinha cabelos castanhos, que balançavam quando ela andava animada, e olhos também castanhos, que brilhavam quando ela sorria. E ela sempre sorria.    Inês era uma menina que se dedicava a estudar. Queria mudar o planeta, melhorar as coisas, ajudar as pessoas. Amava viajar. Ainda sonhava em conhecer o mundo, fotografar sentimentos, explorar lugares e povos desconhecidos. Ela gostava de livros, de séries e de filmes. Se imaginava como personagem, sentia tudo que eles poderiam sentir. Adorava animais e plantas. Inês respirava natureza e leveza.    Inês gostava de roupas frescas, com tecidos tão leves quanto a sua alma. Usava vestidos que balançavam com o frescor do vento e da sua juventude, blusas que transpareciam tudo que ela era, tudo que ela ainda desejava ser. O prob

Decidi não lembrar mais

   Ontem decidi arrumar o quarto. Comecei pelo armário, e tentei organizar, ali, toda a bagunça da minha vida. Entre cabides e roupas jogadas, dobradas ou amassadas, achei memórias esquecidas, sentimentos desprezados, e decidi pendurar, de novo, minha autoestima. Ela andou meio caída.    Passei para a mesa de cabeceira. Eram coisas mínimas, cacarecos, todos escondidos em gavetas que, por fora, davam um ar arrumado à desorganização de qualquer coração. Na sacola que jogaria no lixo, recolhi as mínimas mágoas que ainda guardava por ali.    Por fim, passei para a minha bancada. Entre os livros que muito usava, ali, aparecendo para quem quisesse ver, e principalmente para mim, aquele livro que você me indicou. Eu respirei, suspirei, lembrei. Não precisava lembrar mais. Já fazia tanto tempo. O livro era muito bom, sim, com certeza. Mas eu já tinha lido, relido e refletido. Peguei, com cuidado, e levei para a minha estante, dentro do armário do outro quarto. Era ali que ele ficaria,

Por onde você andava?

   Não sei porque, mas ontem eu abri o seu Facebook. Alguém marcou você, e por um motivo nada especial, dessa vez não vi necessidade em me conter. Eu cliquei lá. Estava curiosa sobre como estaria sendo sua vida depois que a gente parou de se falar.    Senti a saudade que sinto das minhas velhas amigas, com quem já não convivo hoje em dia. Senti a vontade de encontrar por acaso, quem sabe, no shopping ou no mercado, e dar boas risadas com as histórias que sempre começam com "e você lembra do dia que...?". Sorri com algumas lembranças que eu nem imaginava que minha memória ainda era capaz de lembrar.    Eu redescobri você, como uma pessoa que você passa muito tempo sem ver, e de repente relembra aquele jeito de falar, aquela expressão que gostava de usar, aquele jeito engraçado de gargalhar. Achei graça das coisas que você postou, das matérias que comentou, da foto que um amigo te marcou. Imaginei o tanto de coisa que você já viveu e eu nem vi, pensei se você pensaria o

Eu tenho medo de sentir medo

   Não acreditava muito nisso, mas disseram que sou muito corajosa. Disseram que eu corro atrás, que realizo, que faço e aconteço. Eu não sei se acredito. Não sei se tenho essa coragem toda, se sou inovadora e destemida. Eu só sei que morro de medo de sentir medo, de me paralisar por causa do que ainda pode vir a acontecer, de não fazer o que eu quero, preciso ou devo, apenas por causa desse medo.    Eu não quero ser a garotinha do "não consigo". Aprendi a andar de bicicleta antes do que queria porque quebrei a minha rodinha numa pedra grande no caminho da praia. Ouvi meu pai dizer que a opção de ficar com apenas uma rodinha me faria cair para o outro lado o tempo todo, e decidi, com meus conscientes cinco anos, que cair apenas algumas vezes, até aprender, era mais proveitoso. Parar de andar de bicicleta não era uma opção. Queria poder levar o meu aprendizado do caso para as outras áreas, com a mesma segurança da menina que, com menos de um metro de altura, aceitou o de

Para minha Eu do futuro

   Esse é um texto sem "você". Apesar de provavelmente você agora ser uma pessoa diferente do que costumava ser. Te imagino dentro de um avião, sentada ao lado da janela e abrindo, com o mesmo sorriso sonhador de hoje, um envelope mal colado que preparou num passado distante.    Imagino que você continua escolhendo as suas roupas mais confortáveis para viajar, mesmo que haja alguém no portão de desembarque a esperar. Acho que vai estar com o cabelo ainda mais claro que hoje, pelo menos um pouco bagunçado, o rosto quase igual ao de hoje e, quem sabe, talvez não precise mais dos óculos?     Acredito que esteja curiosa para lembrar o que sua versão de dezoito anos escreveu. O que esperava de você? Quem pretendia ser? Aonde sonhava ir? Respire fundo, e relembre tudo que se passou. E agora, com cuidado, abra todas as perguntas que reservo para o futuro. Cuidado com as minhas expectativas, com meus sonhos, com a minha vida.     Sabe, você tem muita responsabilidade. Estej

Desculpa por você ter me conhecido

    Sim, sou eu, te pedindo desculpas. De verdade.    Desculpa por parecer que eu era uma boa opção. Não era minha intenção. Ou talvez fosse, sei lá. Talvez eu também acreditasse nessa outra versão de mim. Eu tentei melhorar. Não só por ti, não é bem assim. Mas é que eu tentei mudar, e digo isso por mim. É uma pena, mas não consegui.    Desculpa por te fazer acreditar que era minha primeira opção. Entre alguéns, sim, talvez você fosse. Mas entre toda a imensidão de coisas que a vida podia ser e oferecer, desculpa, você passou longe de ser uma das minhas prioridades.    Desculpa te fazer perder tempo. Nunca fui de perceber muito o tempo passar, sempre achei que ele era melhor quando não percebíamos que estava passando. E aí ele passou. Você chegou, ficou, foi ficando, e achou que isso era motivo para ficar por mais tempo. Não era suficiente.     Desculpa por todas essas ilusões que surgiram na sua mente. Sim, eu sou a menina que gosta de signos, bruxaria, viagem no tempo e

Guarde seu V de vingança

  Todo mundo tem histórias tristes. Todo mundo tem traumas, mágoas, arrependimentos. Todo mundo, pelo menos uma vez, já confiou demais e quebrou a cara. Todo mundo, de formas diferentes, já partiu o coração. E, olha, as pessoas continuam vivendo, conhecendo, se arriscando a quebrar a cara de novo. Já pensou que talvez o risco valha à pena?    Ouvi dizer que nos tornamos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos. Mas, sabe, talvez isso não seja verdade. Porque, às vezes, você não está tentando cativar. Às vezes, você só está sendo, como sempre é, e não é responsabilidade sua se alguém é cativado. O problema é que, às vezes, é você quem se cativa, e não há mais o que fazer.    Não, talvez aquela outra pessoa não tenha feito de propósito. Talvez você tenha, sim, se magoado. Mas talvez tenha sido você quem esperou demais. Talvez você tenha criado expectativas, tenha feito planos mirabolantes, tenha incluído no seu futuro alguém que ainda está preso ao passado com alguém. E

Para um ainda-não-casal amigo

   Eles eram um ainda-não-casal muito, mas muito fofo mesmo. Eram parecidos na medida em que você pensa "foram feitos um para o outro", e diferentes na medida em que você pensa "esses se completam". Eles viviam grudados não como se fossem dois, mas um. Riam juntos como se fossem vários. E sorriam como se fosse para sempre.     Eles ainda não sabiam. Mas também, só eles ainda não sabiam. É que era tão claro, tão nítido que aqueles dois tinham tudo para ficarem juntos que, na cabeça de todo mundo, eles simplesmente já estavam. Talvez ele já soubesse que gostava dela. Bom, sim, ele já sabia. Mas talvez ele também já soubesse que gostava dela daquele jeito. Talvez, ele só tivesse medo de como ela agiria quando soubesse que o jeito de que ele gostava dela já não era mais o mesmo. Ou, talvez, ele tivesse medo de como ele próprio reagiria quando soubesse que ela já sabia.    Talvez ela morresse de medo de estragar a amizade dos dois. Talvez ela tivesse medo de lim

São tantos amores inacabados

    Era uma coisa tão simples, e ao mesmo tempo tão complexa: olhar para minha estante, abarrotada de livros, e decidir qual seria o próximo que eu deixaria me encantar. Assim, como quem escolhe um amor em uma prateleira. Eu tinha o nome, o autor e a capa. Três informações superficiais, que me instigariam ou não a descobrir o que a orelha me revelava.     Entre tantos títulos, redescobri mais de meia dúzia que já tinha me apaixonado ou entediado antes. Principalmente antes do fim. E pensei, com dó das minhas leituras atrasadas, "que bela leitora você está se tornando". Dessas que para o livro se ele ainda não a surpreendeu. Dessas que esquece o título do que "está lendo" há mais de dois meses - que ela não está realmente lendo, mas que ainda deixa no seu criado-mudo, esperando o dia em que o marcador de páginas magicamente marcará seu fim. Dessas que não dá a chance que o escritor merece. Ou talvez não mereça, mas é preciso pagar para ver.    Deixei histórias,

Ninguém consegue se comparar

    Você é melhor que todos os outros. E nem o melhor beijo – aquele que conseguiu até ser melhor que o seu – consegue se comparar com o seu. Parece um paradoxo, mas ao mesmo tempo tudo parece extremamente simples: é que, em você, nada é apenas isso. Em tudo há mais. E o seu beijo não era só o beijo.     Até o mais bonito de todos, muito mais bonito que você ou qualquer dos outros, não se compara com você. Porque, em você, há mais que beleza. Eu nem te achava bonito quando te conheci, para falar a verdade. Mas não esqueço uma das últimas vezes em que te vi, a gente conversando de lado, e eu olhava para você, esse sorriso aberto, e pensava no quanto tudo aquilo era lindo.     Você é melhor que todos os outros. Porque nem a conversa mais emocionante – em que eu descobri que faria coisas que nunca pensei, e que eu poderia ser forte e corajosa – consegue chegar perto das conversas que tínhamos. Quando a gente simplesmente falava besteira, fazia brincadeiras, quando dormia no celular,

Você é uma droga

   O jeito que você cozinha. Na verdade, o jeito que você tenta - mas nunca consegue - preparar algo minimamente comestível. O seu senso precário de localização, que sempre faz com que você se perca e atrase tudo. As suas brincadeiras fora de hora. Você é uma droga. Definitivamente.    Porque você sempre estraga qualquer comida, bagunça a cozinha e tenta me puxar para uma guerra de farinha que eu, com meu espírito antigo, nunca criaria sozinha. E aí, sem mais esperanças, você liga para o meu restaurante preferido e pede a comida que eu mais gosto no mundo. Porque você sempre muda de rumo sem nem querer, me mete nas maiores aventuras e me apresenta os melhores lugares. E, quando se atrasa, sempre aparece com uma história louca e um brilho nos olhos que me faz lembrar que, por uma vida inteira, alguns minutos podem valer à pena. E porque você consegue me arrancar sorrisos até nos meus momentos de raiva, de tristeza ou de tédio. Com certeza, você é uma droga.    Eu não sei bem co

Espero que ela use o mesmo perfume que eu

   Dois anos. Dois longos anos desde a última vez que te vi. Desde que você decidiu que aquela seria a última vez que eu te veria, mas preferiu não me avisar. Aquela vez em que nem o seu sorriso aberto conseguiu disfarçar a intenção do seu olhar. Dois anos em que eu lembrei, e senti, mas não chorei.    E aí eu fiquei sabendo, sabe-se lá por quem, que você estava namorando. Logo você, que sempre disse ter aversão a essa palavra. Logo você, que me olhava com cara de nada quando alguém perguntava "e aí? Vocês estão juntos ou o quê?". Logo você, que me apresentou à sua mãe pelo nome, sem nenhum adjetivo que desse pistas do que pensava sobre nós dois. Então agora você estava namorando?    Não é que eu tenha procurado saber. Mas é que o mundo é tão pequeno, e gira tão rápido, que um dia uma foto dela veio aparecer justamente no meu Facebook. Uma colega da faculdade, que comentou "quanto amor!" na foto que ela - e só ela - postou. Não foi como se uma faca se enfias

Abra suas asas

   O que significa voar? Era tudo que ela conseguia pensar. Andava com essa ideia fixa há um tempo. Meses, para ser mais exata. Talvez até um ano. Tudo tinha alguma analogia com passarinhos, voos, ninhos. Tudo era oportunidade, vontade, necessidade. E ela sonhava alto demais. Lá em cima, nas nuvens, seu eu futuro observava o presente, a observar a janela, pensando em como finalmente alcançar aqueles objetivos.     Eram objetivos meio indefinidos. Nada de suicídio, para evitar a confusão: seu voo tinha aversão a se jogar de janelas ou qualquer coisa do tipo. Ela sonhava com asas que denominava esforço, às vezes sorte. Não importava muito. Tudo o que pensava era em quando já estivesse lá. Queria vento no rosto, a balançar seus cabelos. E nada de borboletas no estômago - ela queria ser a própria borboleta a voar.    Seu sonho de voo também não tinha muito de fugir do ninho. Era mais como ser capaz de criar o próprio ninho. Era como assumir as rédeas da própria vida. Mas nada de réd

Você ainda tem umas 350 oportunidades

   Alguns dias atrás, você se prometeu algumas coisas. Estudar mais, ir regularmente à academia, ler pelo menos dois livros por mês, não gastar tanto com roupa, parar de ser trouxa, deixar de ser monossilábica com quem não merece. Hoje, você já imagina com preguiça o dia em que as aulas vão voltar. E come feito louca, mas nada de malhar. E aqueles livros que aguardam na sua estante? Você nem tentou começar. Seu guarda-roupa está prestes a transbordar e, sobre ser trouxa, eu nem preciso falar. Por que você insiste em se sabotar?    Todo fim de ano é a mesma coisa: você percebe o quanto o ano passou rápido, reflete sobre o tanto de coisas que gostaria de ter feito, e é esse "ia" que destrói tudo. Você não fez. Você avalia o quanto deixou passar. E aí você se promete que, nesse novo ano, vai mudar. Você quer ter um ano diferente, surpreendente, quer um ano para se encantar. Mas o que você está fazendo para mudar?    Sinto lhe informar, mas não é a virada dos segundos que