Pular para o conteúdo principal

Você não gosta dela


   Você acha ela bonita, mas não é nada como ah-meu-deus-ela-é-muito-linda, e parece que nem é algo como ah-acho-que-vou-apresentar-aos-meus-pais. Você até acha ela legal, mas não diria que ela tem uma conversa que não dá vontade de parar nunca, e talvez ela seja legal apenas para tomar conta do seu cachorro quando você viaja.
   Você até que tem uns papos interessantes com ela às vezes - nada muito profundo nem, nunca, em hipótese nenhuma, sentimental -, mas isso quando não há nada mais importante para fazer nem ninguém mais interessante para encontrar. Você pode até ter postado uma foto com ela nas redes sociais, mas foi incapaz de dizer um "eu te amo" ou "me liga quando chegar em casa". É que você nem liga mesmo para ela. Você não se importa se ela está triste, se você a faz triste, se toda essa história está acabando com a alegria e tranquilidade dela.
   Você gosta do jeito que ela te trata. Gosta de ter alguém por perto a quem possa recorrer em último caso, gosta de ter alguém que se preocupe com o seu estado, gosta de ter alguém que te encha de elogios. Você gosta de receber mensagens perguntando quando vão se ver, ainda que não pretenda responder. Você gosta do olhar dela, todo apaixonado, enquanto o seu é quase que completamente desinteressado. Você gosta de nutrir os sonhos dela, deixá-la cheia de ilusões, enquanto sai por aí caçando novas paixões. 
   Definitivamente, você não gosta dela. Você gosta do seu ego, dos favores, da imagem. O problema é que ela, coitada, não percebeu - ou custa a acreditar. E você não tem nem a decência de falar. Você podia muito bem dizer que não está interessado, que não é o seu momento, ou qualquer coisa que a fizesse entender que o futuro não inclui você. Você devia, no mínimo, não fazer mal a alguém que só te quis bem. E a ela, quando entender, desejo toda a coragem para esquecer você.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Só saudade

   Hoje acordei com saudade. Para falar a verdade, acordei com mais saudade do que não foi. Daquele fim de semana na praia com meus amigos, daquela viagem de reveillón com as meninas, daquela mensagem que eu não mandei. Acordei com saudade do show que não fui por estar doente, do jantar que não fui por causa da prova do dia seguinte. Senti saudade do intercâmbio em que não me inscrevi, dos amigos que não conheci, dos lugares que não visitei.    Acordei com uma saudade louca dos parentes que não deixei, das conversas por Skype que não aconteceram, dos voos que não fiz. Senti saudade até da saudade que não senti. Me deu aquele aperto no coração por não estar contando os dias para chegar em casa e ver todos, por não estar arrumando as malas para vir. É que eu já estou aqui, eu já pertenço a esse mundo, eu já criei raízes.     Senti saudade dos amores que não tive, das cartas que não recebi, dos presentes que não comprei. Das festas que não fui, d...

Amor-passarinho

O amor precisa ser livre. Se não for, simplesmente não será amor. O amor precisa ser livre como passarinho. Precisa poder voar. Precisa ter a liberdade de construir outro ninho. O amor precisa ficar porque quer estar. Não adianta muito ficar apenas porque as asas cortadas já não conseguem voar.  O amor precisa ser livre - no início, no meio e no final - para que continue sendo amor, não posse. Precisa ser livre para poder se transformar, sem se prender em amarras. Só o amor livre consegue se transmutar em outras formas de gostar. O amor precisa ser livre, ainda que seja para voarmos para longe dele. É preciso perceber a hora de pousar, mas também a de ir embora. O amor livre é aquele que se alegra com os grandes voos do outro, mesmo que os ventos levem para outros caminhos. Gosto da metáfora do amor-passarinho: dos voos, dos ninhos, da beleza de poder ir, da sinceridade do querer ficar, da independência de conseguir planar sozinho.  Meu amor-passarin...

Ele era incógnita

   Era uma festa grande. Muito grande. A maior do planeta. E ela estava linda. Encantadora. E ela sabia disso. E também, mesmo que não soubesse, naquele dia todo mundo comentou. Ela estava, como gostaria de dizer, "bombando". Era só sorrisos, os olhos brilhando mais do que a própria fantasia.     Ela estava bem: as coisas da vida corriam certo, a família com saúde, sem tantas emoções. Aí apareceu um carinha. Sabe como é, coisa de carnaval: bonito, parecia legal, a voz sensacional. Ela diria que foi bem legal. E continuou seu carnaval. Qual não seria sua surpresa ao ver que, depois, ele estava falando com ela? Era coisa de carnaval, ela repetia. Engraçado, ela sempre respondia.    Eles começaram a conversar mais. E ele era fofo, ela até estranhou. A amiga avisou: cuidado para não se apegar. Mas não, ela nem precisava ter cuidado. Estava numa época tão boa e tranquila, tão leve, tão bem consigo... Ela estava se divertindo, só isso. Era uma coisa...