Só vai embora, lembrança. E vai batendo a porta, não deixa entreaberta. Sai fazendo escândalo, grita bem alto para que eu ouça todas as letras. Quebra logo um jarro, para o impacto me dar um choque de realidade. Xinga, se exibe, mas cai fora. Vai embora, lembrança, que até a presença da sua ausência já não é mais bem vinda. Aproveita que eu tô poética, e me faz esse favor: transforma esse vazio em dor, que eu transformo a dor em poema e a vida trata de transformar em amor. Diz umas palavras bem duras, cospe mágoas por aí, para eu pegar as lágrimas e transpor o papel, enfiar numa garrafa e mandar tudo para bem longe. Só não fica aí à espreita, parecendo que já não existe, mas de vez em nunca respirando só pra dizer que não morreu. Se manca, lembrança, e se manda daqui.
Era a sensação de falta de pertencimento. Aquela sim, latente, incomodava sempre, escondida no fundo do coração. Ela não era tudo aquilo que diziam ou pensavam, nem era apenas aquilo que diziam ou pensavam. Era filha, amiga, irmã, aluna, colega, futura alguma coisa, qualquer coisa de sucesso. Mas era complicado. Ela era a falta, a inconstância, a não plenitude nem contentamento. Era a busca por algo indizível, incompreensível, inexplicável, ininteligível. Ela não sabia bem o que queria, e andava por aí - aqui, acolá, onde quer que sua mente estivesse ou suas pernas a levassem - meio perdida, em busca do seu "algo" ainda não encontrado. Viajava serenamente em seus próprios devaneios, à procura, em seu inconsciente, daquilo que a completaria. Daquilo que ela criaria energias e correria atrás. Só queria algo a que se doar, completa e impensadamente, sem medo de arrependimentos. Não achou, tão cedo, aquilo de que tanto precisava. Talvez num outro ...
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