Só vai embora, lembrança. E vai batendo a porta, não deixa entreaberta. Sai fazendo escândalo, grita bem alto para que eu ouça todas as letras. Quebra logo um jarro, para o impacto me dar um choque de realidade. Xinga, se exibe, mas cai fora. Vai embora, lembrança, que até a presença da sua ausência já não é mais bem vinda. Aproveita que eu tô poética, e me faz esse favor: transforma esse vazio em dor, que eu transformo a dor em poema e a vida trata de transformar em amor. Diz umas palavras bem duras, cospe mágoas por aí, para eu pegar as lágrimas e transpor o papel, enfiar numa garrafa e mandar tudo para bem longe. Só não fica aí à espreita, parecendo que já não existe, mas de vez em nunca respirando só pra dizer que não morreu. Se manca, lembrança, e se manda daqui.
Hoje acordei com saudade. Para falar a verdade, acordei com mais saudade do que não foi. Daquele fim de semana na praia com meus amigos, daquela viagem de reveillón com as meninas, daquela mensagem que eu não mandei. Acordei com saudade do show que não fui por estar doente, do jantar que não fui por causa da prova do dia seguinte. Senti saudade do intercâmbio em que não me inscrevi, dos amigos que não conheci, dos lugares que não visitei. Acordei com uma saudade louca dos parentes que não deixei, das conversas por Skype que não aconteceram, dos voos que não fiz. Senti saudade até da saudade que não senti. Me deu aquele aperto no coração por não estar contando os dias para chegar em casa e ver todos, por não estar arrumando as malas para vir. É que eu já estou aqui, eu já pertenço a esse mundo, eu já criei raízes. Senti saudade dos amores que não tive, das cartas que não recebi, dos presentes que não comprei. Das festas que não fui, d...
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