Me fingi de morta para tentar te esquecer. Me fiz de desmemoriada, de retardada, só não de suicida. Me fiz de forte, madura, resolvida. Aí me vi sonhando com você. Droga, cadê o controle do inconsciente? Saí mais, escrevi mais, me maquiei mais. Sorri menos. Não curti sua foto, curti minha vida, não compartilhei minha felicidade com você. Entenda, não foi falta de vontade. Foi racionalidade, foi amor próprio, foi não querer incomodar. E aí me acostumei, me acomodei. Dizem que se acomodar é ruim, mas nesse caso, discordo. Passei a me maquiar menos, e deixei que todos vissem a realidade sob minha face. Voltei a sair menos, e as minhas noites em casa também se tornaram não apenas toleráveis, mas agradáveis. Perdi um pouco do assunto da escrita, mas os textos ainda estão lá. E o sorriso? Esse anda normal, vagando por aí, sem esperar. Às vezes aparece, dá gargalhadas até doer, às vezes me olha de longe. Ele só não me deixa, nunca, sofrer por você.
Era a sensação de falta de pertencimento. Aquela sim, latente, incomodava sempre, escondida no fundo do coração. Ela não era tudo aquilo que diziam ou pensavam, nem era apenas aquilo que diziam ou pensavam. Era filha, amiga, irmã, aluna, colega, futura alguma coisa, qualquer coisa de sucesso. Mas era complicado. Ela era a falta, a inconstância, a não plenitude nem contentamento. Era a busca por algo indizível, incompreensível, inexplicável, ininteligível. Ela não sabia bem o que queria, e andava por aí - aqui, acolá, onde quer que sua mente estivesse ou suas pernas a levassem - meio perdida, em busca do seu "algo" ainda não encontrado. Viajava serenamente em seus próprios devaneios, à procura, em seu inconsciente, daquilo que a completaria. Daquilo que ela criaria energias e correria atrás. Só queria algo a que se doar, completa e impensadamente, sem medo de arrependimentos. Não achou, tão cedo, aquilo de que tanto precisava. Talvez num outro ...

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