Pular para o conteúdo principal

Me desculpe, mas obrigada


   Eu já fiz alguém chorar. Ponto, porque esse momento é de reflexão, e a vírgula seria rápida demais. Fiz alguém chorar e sorri por isso. Sorri muito, e quase transbordei em lágrimas. Lágrimas de alegria. Já me fizeram chorar também, e por vários motivos. Não quero saber de tristeza, e se fiz alguém chorar por isso, perdão.
   É indescritível a emoção de estar em cima de um palco, com mais 10 centímetros de salto alto, olhando para uma plateia de duzentas pessoas, falando um texto que escreveu no conforto da sua solidão. É abrir demais o coração. É expor tudo que há por dentro, é deixar as lágrimas, os gritos e os sorrisos saírem em forma de palavra, a voz às vezes fraca.
   Eu já esqueci o meu próprio texto, e não foi por nervosismo. Meu amor por falar em público é quase tão grande quanto o que tenho por escrever. Mas enquanto você vive o presente, procurando por alguém ali, naquela sua plateia atenta, o passado escrito no texto se esquece de que deveria ser dito. E é isso. Branco. Pedi desculpas, retomei, continuei.
   Isso nunca tinha acontecido comigo, e o que podia ser motivo de vergonha se transformou em riso. Ao chegar na coxia, a primeira coisa que ouvi foi "você fez as pessoas chorarem". E eu sorri por isso. Eu me orgulhei. Sabe, a minha intenção sempre foi provocar emoção. Parece que consegui. Ponto para mim. Provavelmente, meu rosto agora está exatamente assim, como na foto. Sorrindo, e morrendo de vontade de chorar. De alegria, claro.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Algo

   Era a sensação de falta de pertencimento. Aquela sim, latente, incomodava sempre, escondida no fundo do coração. Ela não era tudo aquilo que diziam ou pensavam, nem era apenas aquilo que diziam ou pensavam. Era filha, amiga, irmã, aluna, colega, futura alguma coisa, qualquer coisa de sucesso. Mas era complicado. Ela era a falta, a inconstância, a não plenitude nem contentamento. Era a busca por algo indizível, incompreensível, inexplicável, ininteligível.    Ela não sabia bem o que queria, e andava por aí - aqui, acolá, onde quer que sua mente estivesse ou suas pernas a levassem - meio perdida, em busca do seu "algo" ainda não encontrado. Viajava serenamente em seus próprios devaneios, à procura, em seu inconsciente, daquilo que a completaria. Daquilo que ela criaria energias e correria atrás. Só queria algo a que se doar, completa e impensadamente, sem medo de arrependimentos.    Não achou, tão cedo, aquilo de que tanto precisava. Talvez num outro ...

Ele era incógnita

   Era uma festa grande. Muito grande. A maior do planeta. E ela estava linda. Encantadora. E ela sabia disso. E também, mesmo que não soubesse, naquele dia todo mundo comentou. Ela estava, como gostaria de dizer, "bombando". Era só sorrisos, os olhos brilhando mais do que a própria fantasia.     Ela estava bem: as coisas da vida corriam certo, a família com saúde, sem tantas emoções. Aí apareceu um carinha. Sabe como é, coisa de carnaval: bonito, parecia legal, a voz sensacional. Ela diria que foi bem legal. E continuou seu carnaval. Qual não seria sua surpresa ao ver que, depois, ele estava falando com ela? Era coisa de carnaval, ela repetia. Engraçado, ela sempre respondia.    Eles começaram a conversar mais. E ele era fofo, ela até estranhou. A amiga avisou: cuidado para não se apegar. Mas não, ela nem precisava ter cuidado. Estava numa época tão boa e tranquila, tão leve, tão bem consigo... Ela estava se divertindo, só isso. Era uma coisa...

Eu bebi inseticida

   Não tenho medo de aranhas, baratas ou pernilongos. Sempre preferi a técnica infalível da sandália, mas, nesse caso, o método precisou ser aprimorado. Pois bem. Eu bebi inseticida. Acho que fiquei meio mal. Pensaram até em me levar para o hospital, mas agora tá tudo meio normal.    Começaram a perceber pelo meu olhar: parece que parou um pouco de viajar, talvez de brilhar. Dizem que é um dos sintomas principais da intoxicação. Depois, perceberam na minha forma de gesticular: tinha diminuído, eu estava mais quieta, menos descontrolada. É um efeito motor notável.    Sabe, eu não contei a ninguém. Mas mesmo assim, parece que não foi difícil de perceber. Disseram que até a minha forma de falar mudou: devagar, mais concentrada, focada, menos empolgada. Os efeitos foram avassaladores: diminuição crítica do nível de ânimo, queda da ansiedade, perda de sensibilidade.    Eu bebi inseticida. Os efeitos foram descaracterizadores de mim. Talvez h...