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Querida pipoqueira

   Tudo bem, eu sei que você não é uma simples pipoqueira, mas vamos manter a história oficial para os íntimos. Eu também sei que esse texto não é para você, mas para mim. Isso mesmo. Escrevi um texto para mim, começando com um vocativo que chama você, "pipoqueira", mais de um ano atrás, para retornar e nos trazer algumas risadas.
    Por que quem, por favor, ia falar de uma pipoqueira ou uma televisão? Ok, você até pode falar disso com a pessoa que vai comer a pipoca ou assistir à televisão, mas não, isso não é assunto. Ou talvez, bem, isso seja, sim. Eu posso falar da mariposa que insistentemente voa até o lustre, do livro que revirou a minha cabeça, do aniversário da minha amiga, da comida daquele restaurante.
   Eu posso falar de qualquer coisa, contanto que continue falando. E não, não pense que eu sou estranha. Admito que um pouco aleatória, talvez um tanto quanto diferente. Mas, contanto que meus olhos ainda brilhem, que minhas mãos ainda gesticulem rápido, que minha fala se apresse e se intercale com sorrisos, acredite, está tudo bem.
 Esses assuntos aleatórios e aparentemente insignificantes não são nada perto da minha vontade de continuar falando. De interagir. Esses assuntos são apenas a prova de que ainda sou capaz de ver beleza nas pequenas coisas, de achar graça da vida comum, de ser feliz no cotidiano. Esses assuntos podem não ser os mais interessantes do mundo, mas provam que a conversa não morrerá. Provam que há vontade, que há liberdade para viajar. E eu admito, nossa, viajo demais. Mas não me deixe para baixo, não me puxe para o chão. Eu fui feita para voar, sabe?
   Me deixe continuar a falar de borboletas, passarinhos, ninhos. De livros, novelas, do romance da minha amiga. Do chocolate de Gramado, da especificidade do Batom no ponto certo, do camarão empanado que não existe um igual na cidade inteira. Me deixe continuar a me deliciar com a vida e, se quiser, me acompanhe nisso. É a graça da coisa toda, talvez a gente chegue a essa conclusão. Sim, eu me admito, em alguns momentos, sem noção. Mas, vamos lá, admita também: a vida é muito curta pra gente só falar de coisas sérias. 

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