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Meu querido amor nenhum

 

   Ouvi dizer que amor vivo é texto morto. Na hora, concordei. Porque, realmente, quem, em sã consciência, vai deixar de aproveitar toda a beleza de experimentar as sensações do amor para ficar sentado sozinho, apenas escrevendo? Acontece que, primeiro, ninguém apaixonado está com consciência sã nenhuma, e que escrever não é bem uma escolha, mas uma necessidade. 
   Pois bem, agora discordo. Texto morto vem de amor nenhum. Porque se o amor moribundo nos dá inspiração para textos dramáticos, o amor saudável nos dá inspiração para textos felizes, e o amor platônico nos dá inspiração para textos sonhadores, então amor nenhum só dá vontade de dormir. Ficar sentado olhando o nada, esperando o relógio tic-taquear? Não, não. Sinto muito. Essa não é a minha ideia de amor nenhum.
   A minha ideia, pra falar a verdade, inclui boas doses de risada, pitadas de romances quase inexistentes de tão descompromissados, saltos altos, batons fortes, fotos bonitas. A minha ideia de amor nenhum é a concentração daquele amor que se distribuía a quem não queria, todo em si mesmo. É a concretização do amor próprio, a solidificação dos benefícios de viver para si. Pode chamar de egoísmo, mas parei de ligar para o que você ou ele pensam.
   Sim, o amor nenhum sorriu para mim. É, eu admito que estou nessa fase, sem problema nenhum em dizer que não, não estou apaixonada, e não, atualmente nem há ninguém em vista. Desculpem se decepcionei as expectativas porque cheguei aos dezoito anos sem um namorado, ou porque passei nove dias sem escrever. Mas sabe o que é? Eu estava bem ocupada vivendo.

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