Um dia, não me pergunte quando nem por quê, você vai lembrar de mim. E acho que vai sorrir. Vai sim. Um dia talvez você esteja andando na rua, sentado no ônibus, assistindo a aula, sei lá. E aí eu também não sei o que vai acontecer. Talvez alguém tenha um sorriso parecido com o meu, use um perfume que eu costumava usar, talvez alguém fale com o meu jeito de falar. Ou talvez não seja ninguém. Talvez algo ao acaso te faça pensar. Se uma folha marrom cair sobre o seu casaco, e eu surgir na sua cabeça falando que amo o verão, mas que o outono é especial porque abriga meu aniversário, então talvez você lembre de maio e de como tudo começou. Ou de como não se começou nada, você escolhe. Talvez você veja uma caixa de chocolates suíços, e isso te faça lembrar da minha maior paixão de todas, e de como meus olhos brilham só de imaginar. Talvez, um dia você se machuque e lembre do quanto eu sou desastrada e apareço roxa sem nem perceber. E talvez você sorria ao lembrar das minhas expressões surpresas ao encontrar cada um desses hematomas. Talvez você lembre das minhas graças, dos meus trejeitos, dos meus gostos, das minhas histórias. Talvez você até se sinta nostálgico. Mas olha para o lado, vai. Tá vendo aquela menina ali? Ela tá doidinha para sorrir para ti. E sobre mim? Só quero que seja feliz.
Era a sensação de falta de pertencimento. Aquela sim, latente, incomodava sempre, escondida no fundo do coração. Ela não era tudo aquilo que diziam ou pensavam, nem era apenas aquilo que diziam ou pensavam. Era filha, amiga, irmã, aluna, colega, futura alguma coisa, qualquer coisa de sucesso. Mas era complicado. Ela era a falta, a inconstância, a não plenitude nem contentamento. Era a busca por algo indizível, incompreensível, inexplicável, ininteligível. Ela não sabia bem o que queria, e andava por aí - aqui, acolá, onde quer que sua mente estivesse ou suas pernas a levassem - meio perdida, em busca do seu "algo" ainda não encontrado. Viajava serenamente em seus próprios devaneios, à procura, em seu inconsciente, daquilo que a completaria. Daquilo que ela criaria energias e correria atrás. Só queria algo a que se doar, completa e impensadamente, sem medo de arrependimentos. Não achou, tão cedo, aquilo de que tanto precisava. Talvez num outro ...

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