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É hora de dar tchau



Quando eu tinha um ano, Teletubbies começou a ser exibido no Brasil. Eu amava. Ficava no sofá assistindo e, quando o solzinho aparecia e dizia que era hora de dar tchau, me acabava de chorar. Eu chorava tanto, que meus pais criaram uma nova estratégia: compraram fitas cassete e iam gravando os episódios enquanto passavam. Quando o solzinho aparecia e eu já ia começar a chorar, tudo começava de novo. E isso se repetia por vários dias.
Talvez por isso eu não tenha aprendido a dar tchau. Para mim, as coisas pareciam que iam continuar, se ninguém se mexesse para mudar. Cresci e aprendi a lei da inércia. Parecia que tudo fazia sentido. Mas também existe o atrito. E as reações químicas. E a relatividade. E o tempo. É. O Tempo. Para quem já escrevi tantos textos. Com quem teimo em lutar. Sobre o que fico refletindo sem parar. O tempo é o maior anti-inércia que existe. Ele muda tudo. Independente de querer, fazer, tentar. É preciso muito esforço para, com a passagem do tempo, não mudar.
Quando alguma coisa parecia que ia acabar, quando alguém parecia que ia embora, quando alguma fase parecia que ia passar, eu voltava a ser a bebezinha de um ano. Despedidas nunca foram fáceis (já escrevi alguns textos sobre aeroportos, e quem me conhece sabe que é um dos lugares que mais me emociono). Saber que eu precisava dar tchau e ter consciência de que aquela era a minha oportunidade de fazer aquilo me deixava realmente angustiada. Ao mesmo tempo, não ter a chance de dizer adeus mexia comigo de um jeito que eu nem sabia explicar direito. É uma dessas grandes contradições. No fim das contas, acho que eu sempre quis mais: da vida, das experiências, dos lugares, das pessoas. Dar tchau nunca foi o meu forte.
Mas também, dessas outras grandes contradições da vida, eu sempre fui a doida dos pontos finais. Gosto da sensação dos finais de ciclos. Ou às vezes nem gosto, mas eles me aliviam. Não saber se algo já acabou ou não me parece tão pior do que lidar com fins e recomeços, justamente porque a sensação de estar no limbo me aterroriza. Gosto de saber onde estou pisando - ainda que seja ruim ou difícil, é sempre mais fácil quando estamos preparados, quando temos a real noção da situação. E é por isso que, mesmo não sabendo dar tchau, gosto de pontos finais.
Ou talvez, reflito, não seja por isso. Talvez eu busque pontos finais justamente porque não sei a hora de dar tchau (ou não aceito, quando já sei). E aí, coloco no outro, ou na situação, ou no lugar, a responsabilidade por me dar o ponto final que eu não consegui, sozinha, colocar. Meus pontos voluntários são, no máximo, de parágrafo. Muitas vezes implicam orações condicionais ou se aglomeram em reticências. Talvez seja essa minha mania de eternidade, evidente desde a minha fase de Teletubbies. 
Pelo motivo que for, buscando ou não, os pontos finais acontecem. Ou acontecem finais sem pontos. Um dia, saímos para brincar com os nossos melhores amigos de infância pela última vez - e ninguém sabia que era a última. Li essa frase outro dia, e senti a dor de quem, apesar de não saber dar tchau, se sente injustiçada quando não recebe um. Aprendi a apreciar, de um jeito meio torto e confuso, quem torna despedidas mais leves: quem pontua que elas precisam acontecer, mas destaca o lado bom dos recomeços. Talvez eu nem seja tão fã de pontos finais, afinal. Talvez eu só goste mesmo é da beleza de começar a escrever novas páginas.

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