Andava a pensar, pensar e pensar. Refletia sobre a vida, as lembranças, os laços. Sentia tudo aquilo - a vibração da cidade, o burburinho das expectativas, os murmúrios das conversas sorrateiras - eletrizar sua pele, arrepiar seus poros, correr por seu sangue e movimentar seus dedos. Sentia a necessidade da caneta, a precisão do caderno, o ritmo da ponta a tocar o papel e soltá-lo para passar a escrever outra palavra. Tudo aquilo borbulhava em suas veias, e sua cabeça girava feito louca, na busca de um bom assunto, um sentimento profundo e dramático. Estava tudo na ponta da língua, a técnica - muito mais sentimental que gramatical - continuava lá, mas lhe faltava o principal: o sofrimento. Simplesmente não havia porque sofrer. Ela esbanjava seu sorriso por aí, prova viva e invariável de que sua capacidade de escrita andava, no mínimo, ociosa. Mas, se não havia porque sofrer, não haveria, infelizmente, sobre o que escrever. Não com veracidade, profundidade e emoção. Não haveria a dor que toca os corações, não haveria a lágrima que sela a aprovação - e o sentimentalismo - dos leitores. Mas que fosse assim. Que o assunto não saísse, que os textos continuassem bobos, se ela ainda pudesse, ao menos, continuar a exibir aquele sorriso bobo no rosto.
Hoje acordei com saudade. Para falar a verdade, acordei com mais saudade do que não foi. Daquele fim de semana na praia com meus amigos, daquela viagem de reveillón com as meninas, daquela mensagem que eu não mandei. Acordei com saudade do show que não fui por estar doente, do jantar que não fui por causa da prova do dia seguinte. Senti saudade do intercâmbio em que não me inscrevi, dos amigos que não conheci, dos lugares que não visitei. Acordei com uma saudade louca dos parentes que não deixei, das conversas por Skype que não aconteceram, dos voos que não fiz. Senti saudade até da saudade que não senti. Me deu aquele aperto no coração por não estar contando os dias para chegar em casa e ver todos, por não estar arrumando as malas para vir. É que eu já estou aqui, eu já pertenço a esse mundo, eu já criei raízes. Senti saudade dos amores que não tive, das cartas que não recebi, dos presentes que não comprei. Das festas que não fui, d...

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