Andava a pensar, pensar e pensar. Refletia sobre a vida, as lembranças, os laços. Sentia tudo aquilo - a vibração da cidade, o burburinho das expectativas, os murmúrios das conversas sorrateiras - eletrizar sua pele, arrepiar seus poros, correr por seu sangue e movimentar seus dedos. Sentia a necessidade da caneta, a precisão do caderno, o ritmo da ponta a tocar o papel e soltá-lo para passar a escrever outra palavra. Tudo aquilo borbulhava em suas veias, e sua cabeça girava feito louca, na busca de um bom assunto, um sentimento profundo e dramático. Estava tudo na ponta da língua, a técnica - muito mais sentimental que gramatical - continuava lá, mas lhe faltava o principal: o sofrimento. Simplesmente não havia porque sofrer. Ela esbanjava seu sorriso por aí, prova viva e invariável de que sua capacidade de escrita andava, no mínimo, ociosa. Mas, se não havia porque sofrer, não haveria, infelizmente, sobre o que escrever. Não com veracidade, profundidade e emoção. Não haveria a dor que toca os corações, não haveria a lágrima que sela a aprovação - e o sentimentalismo - dos leitores. Mas que fosse assim. Que o assunto não saísse, que os textos continuassem bobos, se ela ainda pudesse, ao menos, continuar a exibir aquele sorriso bobo no rosto.
Era a sensação de falta de pertencimento. Aquela sim, latente, incomodava sempre, escondida no fundo do coração. Ela não era tudo aquilo que diziam ou pensavam, nem era apenas aquilo que diziam ou pensavam. Era filha, amiga, irmã, aluna, colega, futura alguma coisa, qualquer coisa de sucesso. Mas era complicado. Ela era a falta, a inconstância, a não plenitude nem contentamento. Era a busca por algo indizível, incompreensível, inexplicável, ininteligível. Ela não sabia bem o que queria, e andava por aí - aqui, acolá, onde quer que sua mente estivesse ou suas pernas a levassem - meio perdida, em busca do seu "algo" ainda não encontrado. Viajava serenamente em seus próprios devaneios, à procura, em seu inconsciente, daquilo que a completaria. Daquilo que ela criaria energias e correria atrás. Só queria algo a que se doar, completa e impensadamente, sem medo de arrependimentos. Não achou, tão cedo, aquilo de que tanto precisava. Talvez num outro ...

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