Pular para o conteúdo principal

Faz parte do ofício

   São muitos dias para poucas palavras, são poucos dias para muitos sentimentos, são sentimentos demais para tão pouco papel escrito. Mas, se o peso desse papel ainda consegue ser maior do que a leveza desses tais sentimentos, então, talvez seja compreensível. 
   Onde estão o sofrimento, a saudade, a catarse? Foram todos embora há muito tempo. E, mesmo assim, o que os mantinha nos textos? A falta de outros melhores para substituí-los. O que os mantinha na vida? Absolutamente nada. E talvez, até quando nem eles conseguiam mais permanecer, e a melancolia ainda brotava das palavras, então era a dor de outrem se manifestando pela escrita solitária. 
   É parte do ofício, eu sei. Sentir o que não é nosso, sofrer pelo amor alheio que se foi, chorar pela partida que não presenciamos, sorrir com a caixa de chocolates que não ganhamos. E até quando não conhecemos as personagens, criamo-nas para possibilitar o bom texto. Cultivamos a emoção, e no fim a história passa até a ser real - dentro de nós. 
   O fato é que a inspiração muda. O sentimento muda. A vontade muda. E assim, o texto vai junto, mudando. Ou, nesse caso, diminuindo a frequência. Portanto, com toda a pompa da explicação, desculpem. Os textos vão continuar, porque a vida e as emoções não vão parar. Eles só estão em um momento tão leve que, no momento, preferem voar.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Algo

   Era a sensação de falta de pertencimento. Aquela sim, latente, incomodava sempre, escondida no fundo do coração. Ela não era tudo aquilo que diziam ou pensavam, nem era apenas aquilo que diziam ou pensavam. Era filha, amiga, irmã, aluna, colega, futura alguma coisa, qualquer coisa de sucesso. Mas era complicado. Ela era a falta, a inconstância, a não plenitude nem contentamento. Era a busca por algo indizível, incompreensível, inexplicável, ininteligível.    Ela não sabia bem o que queria, e andava por aí - aqui, acolá, onde quer que sua mente estivesse ou suas pernas a levassem - meio perdida, em busca do seu "algo" ainda não encontrado. Viajava serenamente em seus próprios devaneios, à procura, em seu inconsciente, daquilo que a completaria. Daquilo que ela criaria energias e correria atrás. Só queria algo a que se doar, completa e impensadamente, sem medo de arrependimentos.    Não achou, tão cedo, aquilo de que tanto precisava. Talvez num outro ...

Ele era incógnita

   Era uma festa grande. Muito grande. A maior do planeta. E ela estava linda. Encantadora. E ela sabia disso. E também, mesmo que não soubesse, naquele dia todo mundo comentou. Ela estava, como gostaria de dizer, "bombando". Era só sorrisos, os olhos brilhando mais do que a própria fantasia.     Ela estava bem: as coisas da vida corriam certo, a família com saúde, sem tantas emoções. Aí apareceu um carinha. Sabe como é, coisa de carnaval: bonito, parecia legal, a voz sensacional. Ela diria que foi bem legal. E continuou seu carnaval. Qual não seria sua surpresa ao ver que, depois, ele estava falando com ela? Era coisa de carnaval, ela repetia. Engraçado, ela sempre respondia.    Eles começaram a conversar mais. E ele era fofo, ela até estranhou. A amiga avisou: cuidado para não se apegar. Mas não, ela nem precisava ter cuidado. Estava numa época tão boa e tranquila, tão leve, tão bem consigo... Ela estava se divertindo, só isso. Era uma coisa...

Amor-passarinho

O amor precisa ser livre. Se não for, simplesmente não será amor. O amor precisa ser livre como passarinho. Precisa poder voar. Precisa ter a liberdade de construir outro ninho. O amor precisa ficar porque quer estar. Não adianta muito ficar apenas porque as asas cortadas já não conseguem voar.  O amor precisa ser livre - no início, no meio e no final - para que continue sendo amor, não posse. Precisa ser livre para poder se transformar, sem se prender em amarras. Só o amor livre consegue se transmutar em outras formas de gostar. O amor precisa ser livre, ainda que seja para voarmos para longe dele. É preciso perceber a hora de pousar, mas também a de ir embora. O amor livre é aquele que se alegra com os grandes voos do outro, mesmo que os ventos levem para outros caminhos. Gosto da metáfora do amor-passarinho: dos voos, dos ninhos, da beleza de poder ir, da sinceridade do querer ficar, da independência de conseguir planar sozinho.  Meu amor-passarin...