Pular para o conteúdo principal

Palavras amantes

   Aquelas palavras que não são só minhas, nem sequer de língua alguma. Palavras que são repetidas a todo momento, em todos os cantos do mundo, por tantos casais, que chega a ser cansativo pensar. Incrivelmente, cada vez que saem da boca de alguém - um alguém específico e multiplicado com intermináveis variantes por 7 bilhões de pessoas, pois são todos únicos e especiais, diferentes entre si, mas todos esses passíveis de caírem nos mesmos clichês - essas palavras conseguem parecer surpreendentemente novas. E são. 
   Porque o que define a emoção que uma palavra é capaz de causar não é a classe gramatical, a divisão silábica ou a tonicidade. Essas coisinhas imutáveis são igualmente insignificantes nos momentos em que se ouve - se sente - aquelas palavrinhas mágicas. O que define todo esse momento se chama circunstância: e ela muda a cada casal, país, época, cultura e gosto.
   O que define tudo isso é justamente a ausência da palavra propriamente dita, só a latência naquele silêncio que quer dizer muito, mas morre de medo de ser o primeiro. É o olhar doce,  que não precisa de palavras para dizer que se preocupa. É a mão que tenta dizer que cuida.  As palavras do amor estão mais nas entrelinhas dos sentidos, nos implícitos dos não ditos, no subentendido. E, talvez, seja por isso que esta escritora que vos fala, ainda com tantas páginas em branco e ideias subjetivas, prefira falar de palavras ainda não ditas (muito mais inspiradoras), a recitar as minhas velhas palavras repetidas.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Amor-passarinho

O amor precisa ser livre. Se não for, simplesmente não será amor. O amor precisa ser livre como passarinho. Precisa poder voar. Precisa ter a liberdade de construir outro ninho. O amor precisa ficar porque quer estar. Não adianta muito ficar apenas porque as asas cortadas já não conseguem voar.  O amor precisa ser livre - no início, no meio e no final - para que continue sendo amor, não posse. Precisa ser livre para poder se transformar, sem se prender em amarras. Só o amor livre consegue se transmutar em outras formas de gostar. O amor precisa ser livre, ainda que seja para voarmos para longe dele. É preciso perceber a hora de pousar, mas também a de ir embora. O amor livre é aquele que se alegra com os grandes voos do outro, mesmo que os ventos levem para outros caminhos. Gosto da metáfora do amor-passarinho: dos voos, dos ninhos, da beleza de poder ir, da sinceridade do querer ficar, da independência de conseguir planar sozinho.  Meu amor-passarin...

Só saudade

   Hoje acordei com saudade. Para falar a verdade, acordei com mais saudade do que não foi. Daquele fim de semana na praia com meus amigos, daquela viagem de reveillón com as meninas, daquela mensagem que eu não mandei. Acordei com saudade do show que não fui por estar doente, do jantar que não fui por causa da prova do dia seguinte. Senti saudade do intercâmbio em que não me inscrevi, dos amigos que não conheci, dos lugares que não visitei.    Acordei com uma saudade louca dos parentes que não deixei, das conversas por Skype que não aconteceram, dos voos que não fiz. Senti saudade até da saudade que não senti. Me deu aquele aperto no coração por não estar contando os dias para chegar em casa e ver todos, por não estar arrumando as malas para vir. É que eu já estou aqui, eu já pertenço a esse mundo, eu já criei raízes.     Senti saudade dos amores que não tive, das cartas que não recebi, dos presentes que não comprei. Das festas que não fui, d...

Nosso momento passou

   Já passou da hora de te dizer adeus. Já passou da hora de me virar, andar para longe sem olhar para trás. Já passou da hora de tirar suas fotos dos meus porta-retratos, de jogar as flores mortas fora, de tirar a água do jarro. Já passou da hora de guardar suas cartas, devolver o que você esqueceu em minha casa, quitar as contas dessa história.    Já deixei a hora passar algumas vezes, mas juro que agora é oficial! Coloquei no meu despertador e tudo. Preparei a sala, a mala e as lágrimas. Te espero com um jantar saboroso, um clima agradável, e te preparo para ouvir o que menos queria. Mas é que eu preciso. Nós precisamos, porque já não existe mais um nós vivendo sob isso tudo. Separei todas as suas coisas nessa mala, que assim você não precisa reviver os nossos momentos, nem os nossos ainda não-momentos, que não vão mais acontecer, só para recolher o que falta. Você não merece passar por esse sofrimento. Mas merece menos ainda ficar preso a algo que já deu t...